Como uma extensão dos olhos, os dedos perscrutavam as capas dos CD’s; o ato de tocá-los confirmava a minúcia de sua pesquisa por algo interessante para ouvir. Não eram os seus álbuns, não era sua estante, não estava em sua casa, mas tinha intimidade o bastante com aquela mulher para abrir seus armários enquanto ela fazia o almoço daquele domingo. Quando já havia perdido completamente a fé de achar algo interessante no meio dos nomes de cantores evangélicos e trilhas sonoras de novelas do horário nobre, fora surpreendido pelo velho Willie Nelson, embora na capa daquele álbum ele não fosse assim tão velho.
Olhava para ela enquanto esperava a música começar, esperando qual seria a reação dela à música. Em verdade, aquela atitude era uma forma de mostrar que, a despeito de ter metade da idade dela, também tinha bom gosto, também gostava dessas músicas, essas da época dela. E ela. Sem desviar a atenção do que estava fazendo, meneou a cabeça e pausadamente disse para si, “Fazem mais de vinte anos que eu não escuto Willie Nelson” enquanto o rosto desenhava um sorriso que ele raramente via no rosto dela: profundamente sincero, sem afetação, um sorriso que a tornava um livro aberto, onde ele pode ver os vinte e cinco anos que os separavam: a certeza de que passaria a vida ao lado do homem que dançava country com ela há mais de vinte anos se tornando esperança e em seguida dúvida e depois tragédia.
Depois daquele almoço de domingo ele demorou a voltar naquela casa. Quando o fez, alguns meses depois – quando já não tinha mais a mesma intimidade com aquela casa -, fora surpreendido pelo som de música country. As lembranças desses últimos meses não foram das mais maravilhosas, mas serviram para afogar o que sobrou do passado.
Shotgun
19
mai