Archive | junho 2011

In the mood

“That era has passed.

Nothing that belonged to it exists any more.”

Heresiologia.

Não lembro se cheguei a dizer que você foi um dos melhores amigos que eu já tive. Mas tenho certeza de ter dito que te amava, e fico feliz por ter dito isso. O seu jeito simpático de lidar com quem você não tinha a menor obrigação de tratar bem era cativante. Por isso mesmo, creio eu, poucas lembranças na minha vida são tão fortes como a da noite em que nos conhecemos: fomos acompanhar as meninas até em casa e começamos a conversar sobre filósofos alemães e em seguida sobre como cortar carne para churrasco, “Me identifiquei muito com você, Bruno.”, foi o que você disse quando a despedida se tornou inevitável. Uma franqueza simples, que me deixava tanto admirado quanto chocado. Aquela noite poderia abrir um capítulo na minha biografia, que seria exclusivo para contar o quanto aprendi desde então. Ninguém sabe ao certo quantas noites viramos na sala da Ninha, conversando, jogando ou lendo. Você não lia – lecionava. Um mestre nato. Eu fingia entender; pensava que esqueceria as palavras estrangeiras no dia seguinte, mas lembro-me delas até hoje. Hoje. É puro egoísmo dizer que você faz falta hoje.
Era noite quando a Ninha me ligou, tentando dizer entre os soluços que teu coração havia parado. Quando recebi a notícia de tua morte eu estava atravessando a Primeiro de Março e a rua simplesmente sumiu embaixo dos meus pés. Vacilantes, minhas pernas me arrastaram até uma árvore, onde braços procuravam o inútil apoio: já não havia mais chão em parte alguma. Os prédios antigos do centro, a história, a noite, estrelas, cores, viagens, as fotos, a música: tudo sumiu num embaçado de lágrimas asfixiante. Quando A. saiu do trabalho, me encontrou debulhando as lágrimas no chão. Repeti a notícia três vezes antes que ele se rendesse à verdade. Dentro de uma hora estaríamos repetindo tuas piadas e rindo do que antes era desgraça.
Não fui no teu enterro, culpa tua; aprendi contigo a não me sentir a vontade com a falta de sentido dessas coisas. Mas sei em detalhes como foi: pastor, puta, professor, padre, traficante – todo o tipo de gente, de toda a parte da cidade. Mas em nada tua morte causou mais impacto naquelas vidas do que o tempo que você passou com elas. Nenhum dia da tua vida foi desperdício.