Sociedade secreta
É o preço que se paga por se prestar a viver: risco é algo que jamais entra no bunker. Você reavalia o seu passado, relê os acontecimentos e acha que poderia ter evitado essa ou outra situação, mas não. Esquecemos que se houvesse evitado não teria aprendido nem mesmo a avaliar. Você despreza pessoas cometendo erros grotescos por todos os lados por pura ingenuidade de achar tudo exagero. Tudo evitável. Olhando da janela do quarto trancado no alto do prédio, parecem todos fracos, desinformados do perigo do mundo, entregues por sua própria ignorância a erros imbecis. Sinceramente, um ponto de vista privilegiadamente pueril. Imbecil mesmo, é se achar forte diante de gente que se presta a botar o pé na vida e não se amedronta diante da possibilidade do sofrimento, dos erros e das conseqüências. Não é o desejo de conhecer os limites físicos ou emocionais, é apenas um sentimento inexpugável de não passar esse pouco tempo que nos foi dado sobre a terra em branco. Nosso tempo é um dom demasiadamente precioso para gastar em branco. Você olha para o quarto, seu palácio, seu bunker, no silêncio dessa paz fabricada nada se perde e nada se ganha – mas você vai acabar perdendo a lucidez de tanto se repetir “vale a pena, vale a pena, valeapen” Vale? Não podemos parar por aqui; sair da zona de conforto não é só uma questão de maturidade versus teimosia. É uma questão de obediência ao propósito pelo qual você está aqui. Lembra do que Jesus diz naquela parte da bíblia, das moedas de ouro? Está lá no novo testamento, no livro de Mateus, se não me engano no capítulo vinte e cinco. Vê lá quem é o fraco. Quem é o imbecil.
Grace gift.
“Allo de diakriseis pneumaton“, foram as palavras de Paulo aos gregos para se referir à habilidade de examinar as intenções alheias com sabedoria e discernimento da verdade. A habilidade de quem sabia por à prova (diakrisis) os corações ou perscrutar pensamentos. É interessante que o próprio autor classificava-a usando um termo em contraposição à habilidade “schio“, que é adquirida pelo esforço intelectual e maturidade, resultados da imprescindível experiência, que na minha humilde opinião, advém principalmente de saber julgar as próprias intenções. E por isso o termo que ele usou parece brincar com o meu bom senso: “charisma“. Etimologicamente: charis + mata, literalmente: dado de graça. E, sinceramente, acreditar nisso, já é em si um dom.
Rom 3:23
“It’s not just an issue that we have sinned. The issue is we’ve never
done
anything
but
sinned.”
Luc 9.23
O mais importante avanço tecnológico da humanidade foi dar utilidade ao fogo. Primeiro para ferver alimentos, tornando-nos hábeis a aproveitar integralmente os nutrientes vegetais, suplantando a falta de um sistema digestório que quebrasse a parede da célula vegetal. E isso foi só o começo da história. Ficou claro que a maior capacidade do intelecto humano era suplantar suas faltas com fontes exógenas. Mais que uma capacidade, pode-se colocar isso como uma das principais características da natureza humana. Mesmo antes do fogo, dos alimentos e de qualquer forma de tecnologia, o primeiro intelecto sensato a pisar a face da terra enquadrou-se como ser humano por ter a capacidade de fazer-se emocionar com algo exógeno à própria existência. Digo “fazer-se”, pois entende-se que houve propósito premeditado em buscar algo que pudesse desencadear uma determinada emoção. Ação focando meramente emoção. Para saber que um vegetal seria melhor aproveitado após cozido, seria necessário combinar lógica, conhecimento de campo e empirismo; por outro lado, para alcançar uma determinada emoção basta deixar-se seguir pelo instinto que subjetivamente nos guia à fonte do sentimento. Tal como usamos o fogo para controlar o que corpo não pode quebrar, usamos a causalidade para gerar a emoção que obviamente o consciente não pode gerar. Ela é fruto da alma e uma vez manifesta, age independente da vontade do consciente e geralmente sem que possamos alterar seu curso de uma forma agradável, volitiva ou previsível. Usamos a realidade para atear fogo aos nossos próprios corpos. E mesmo quando se dedica esforço para contrariar a ação que a emoção nos incita a tomar (um exemplo grosseiro: medo/fuga), ainda assim é agir em função de emoções. Acho interessante não pensar na emoção como uma parte sintética da essência do ser humano (onde a soma de emoções acidentais resultariam na totalidade do ser), mas sim como a própria manifestação consciente desta, limitada pelas características que a classificam enquanto emoção – fazendo-a conscientemente perceptível. Cogito ergo sum, considera apenas o caso da manifestação emotiva; Sou onde não penso, considera a essência; admite que existimos além das emoções. Enquanto conscientes, não apenas sentimos: somos emoções se manifestando ao longo da variável tempo. Pensar assim nos faz admitir que negar a emoção – seja ela qual for, seja sua fonte qual for – é obrigatoriamente negar a si mesmo.
epískopos
Faz bom um tempo, um amigo me perguntou se acreditar em Deus, se aceitar a verdade de Jesus (a.k.a. converter-se) era um ato imediato e espontâneo ou um processo, uma coleção de atitudes. Respondi rápida e rasteiramente: é ato. O jovem que me fez a pergunta, que já na época era tão mais sábio do que eu quanto o é ainda hoje, me treplicou com um olhar que silenciosamente dizia: tem certeza? Comecei ali a aprender que o excesso de pragmatismo era algo que eu deveria lapidar de forma consciente no processo de amadurecimento; deixá-lo crescer de forma deliberada me levaria a exigir que o mundo convergisse em simplórias opiniões pessoais (do inaceitável…) e daí a deduzir que Deus age sempre da forma que desejamos que ele se manifeste (… ao absurdo). Saber intelectualmente que Jesus veio ao mundo, morreu no lugar de Barrabás é um passo. Aceitar a realidade de que eu sou um barrabás, o passo; ler um evangelho, mais um. Chorar depois de ouvir o galo cantar outro passo. E acaba-se montando, espontaneamente, uma coleção de atitudes imediatas.
Heurístico
A questão da vida na terra é interessante. Qualquer estudo sério a respeito de vida fora deste planeta vai esbarrar com o fato que a vida aqui só fez existir aqui pelo conjunto de alguns acontecimentos sem precedentes ou posteriores equivalentes, alcunhados acidentes. É um fato que só estamos aqui por uma cadeia indefinida de acidentes excepcionais. Ao passo que nossa vida como indivíduo se faz única pelo mesmo motivo: ninguém sofre os mesmos acidentes que você. Mesmo considerando, hipoteticamente, que duas pessoas no mundo possam pensar de maneira idêntica e lidar com o mundo de igual forma, suas vidas são invariavelmente distintas pelas suas experiências pessoais – imaginar dois indivíduos iguais nesse sentido deixa de ser absurdo para ser cômico. Deus entra não só como uma justificativa – daí tira-se apenas uma explicação didática, geralmente inútil – para os acontecimentos, mas além, um propósito. Não apenas para usar os acidentes, mas além, para usar cada pedaço de personalidade, cada fração de talento que eles subsequenciam. Só é possível ver sentido prático nos acidentes quando observamos suas marcas estampadas em nossas vidas, mas uma vez feito isso deixamos de considerá-los meros acidentes.