ego
quando chegava cedo o suficiente para encontrar alguém acordado na casa, um longo cumprimento e um sorriso faziam parte do meu comportamento natural: era feliz voltar pra casa. após falar com o vô e a vó, me dirigia ao quarto. banheiro, quarto, roupa, cozinha, janta, cama. por natureza, falava pouco. a palavra desnecessária saindo de mim me acaricia como areia jogada sobre a carne viva. não queria estorvar a paz e o silêncio naturais da casa. por respeito. sempre prestei a ouvir meu avô que – para total surpresa – também tinha seus problemas. com a avó, com grana, com a casa, com o vizinho. ver 72 anos de experiência falando de problemas que não consegue resolver é aterrador; sentia-me completamente impotente. a sensação de incompetência em ajudar passou tão logo quanto se percebeu que o objetivo do velho não era exigir soluções. queria falar. por falar. ele nutria, para a minha sorte, uma avidez por ensinar, redarguir, exortar e por vezes ouvir o bom e velho óbvio de alguém, mesmo que ele já encerrasse na própria experiência o ponto de vista mais correto: trazer um doce à boca quando se tem fome é diferente de trazê-lo à lembrança. de igual modo, ouvir de alguém palavras gentis em momentos ruins é necessariamente bom mesmo quando já se as têm em mente. além, é doce ouvir o que se pensa brotando em boca alheia. ainda mais d’uma boca que se ama. te ama.
ainda aí, a meu respeito, imperava o silêncio. nunca foi pela manutenção privacidade, que sempre me foi cara, mas pelo zelo em manter a paz; em não descarregar minhas questões em cima de uma vida já atribulada. ele não precisava disso. eu: ingênuo; tolo. passado algum tempo, começa a especulação por parte de quem esperava ouvir algo e: nada. essa foi a primeira e única vez que eu vi o velho tomar uma atitude incorreta: especulou. a priori, sem mais nem menos. um erro na qual, invariavelmente, todos caímos. começou a inventar em si e nos outros razões para o meu silêncio, antes de procurar razões diretamente em mim. e então começaram os lamúrios, as desavenças, a distância. em suma, tudo o que através do silêncio eu tentava evitar. chorei. qualquer coisa que o estiolasse me transtornava; não obstante, morria sufocado pela consternação quando encarava tal coisa: eu.
quando após meses surgiu – após uma longa conversa - a solução, partindo obviamente da parte mais sábia, voltei a respirar. ele, silencioso e sorridente, fechava a porta do quarto toda a vez que eu entrava. vi respeito. senti confiança. acima, amor.
a partir de então a relação prosseguiu com a palavra dando cada vez mais lugar a atitudes e, paulatinamente, reduzir-se cada vez mais ao estritamente necessário.
no dia em que saí de casa – morar no centro, perto do trabalho -, ele chorou.
a contradição foi o primeiro traço dele que eu vi em mim.
olhando em retrospecto, contemplo, entre mim e o mundo, uma couraça que as minhas palavras, por falta de uso, não detém a habilidade para romper. defeito, vício e falta.
foi demorado e custoso aprender que se deve fazer uso da palavra na hora certa para evitar que o vazio do silêncio dê lugar ao diabo.
epískopos
Faz bom um tempo, um amigo me perguntou se acreditar em Deus, se aceitar a verdade de Jesus (a.k.a. converter-se) era um ato imediato e espontâneo ou um processo, uma coleção de atitudes. Respondi rápida e rasteiramente: é ato. O jovem que me fez a pergunta, que já na época era tão mais sábio do que eu quanto o é ainda hoje, me treplicou com um olhar que silenciosamente dizia: tem certeza? Comecei ali a aprender que o excesso de pragmatismo era algo que eu deveria lapidar de forma consciente no processo de amadurecimento; deixá-lo crescer de forma deliberada me levaria a exigir que o mundo convergisse em simplórias opiniões pessoais (do inaceitável…) e daí a deduzir que Deus age sempre da forma que desejamos que ele se manifeste (… ao absurdo). Saber intelectualmente que Jesus veio ao mundo, morreu no lugar de Barrabás é um passo. Aceitar a realidade de que eu sou um barrabás, o passo; ler um evangelho, mais um. Chorar depois de ouvir o galo cantar outro passo. E acaba-se montando, espontaneamente, uma coleção de atitudes imediatas.
Noite de sexta.
A existência da maturidade, em qualquer nível, só se torna perceptível quando o indivíduo é obrigado a encarar a grandeza de acontecimentos únicos, nos quais não se permite a presença de muitos sentimentos, obrigando-nos fundir todos quantos nos expressem numa massa disforme, inominável.
E a vergonha de se desmanchar na frente dos outros, nos guia à solidão. Puro orgulho.