Fuga.

Não contei quantas vezes pedi desculpas, mas foi o suficiente para começar a me perturbar com a minha própria voz, volta e meia lamentando ter feito algo de errado; volta e meia cruzando linhas que eu só lograva existirem depois de haverem sido cruzadas. “Limites são relativos”, mas a relatividade ficava fora de você. Da linha para dentro é tudo absoluto, imutável, irrevogavelmenteinegociável.
De uma pessoa que aparentemente está tentando se tornar um adulto, naturalmente espera-se uma certa medida das palavras: tal como uma flecha, um insulto uma vez lançado fica completamente fora de controle. Deveria ter ficado na adolescência, creio eu, o aprendizado de que deve-se medir palavras antes que elas saiam do coração e alcancem os lábios.
O “eu te amo” deve ser encarado como mais que uma mera constatação das emoções envolvidas num relacionamento, mas como um compromisso de alguém que está disposto a cometer a ação que o verbo congrega: amar. E, pelo amor, jamais se cava trincheiras na frente de quem se ama.
Vou te falar, eu também tenho lá minhas linhas. Elas são bem definidas, mas negociáveis, sempre. Logo no início da minha mocidade deixei de acreditar que vou passar incólume pela vida; desde então aprendi a negociar. Mas sobre as linhas: em mim também têm um limite: eu só venho até aqui.
1.1.11
A enxaqueca é única companhia regular dos últimos três dias. Exceto por ontem, réveillon, em que por algumas poucas horas ela deu lugar a uma satisfação conformada. [de madrugada, um laboratório de manutenção (pretensão de uma sala cheia de computadores e outras máquinas abertas) é exatamente como deve ser: frio, sobretudo; luzes apenas nos leds de atividade e nos monitores]. Fazia muita questão de festa em final de ano quando era pequeno; sem nenhum motivo em especial essa necessidade evanesceu ao longo de poucos anos. Naturalmente, a gente começa a questionar a origem e razão dos próprios hábitos em razão proporcional à passagem do tempo – deixou de fazer sentido considerar o peso de um dia maior do que um ano inteiro [Deixei a barra de chocolate ao lado do copo de café; derreteu]. Mesmo assim, continua sendo bom e tendo sentido dedicar as últimas e as primeiras horas do ano com gente que se ama – esquecer que todos temos prazos, hora para cumprir, ordem de serviço, sistema operacional para instalar no servidor tal e. Respirar. Ao lado de quem faz a gente sentir-se a vontade, seja para comemorar (mesmo que nem sempre saibamos o que precisa ser comemorado) ou curtir o silêncio [telefone; o servidor tal parou].
Andorinhas

Respirava com dificuldade. Ao seu redor, tudo era silenciosamente caótico. As palavras não passavam de meros ecos. Olha, olha, dói, calma, vivo, choque, calmacalma, telefone, chama, não toca – se esforçava para juntar as palavras com quem se esforça para carregar o mundo com os braços. Com um braço.
“Ele não viu, tadinho. ‘Tava’ muito rápido”, disse a senhora.
A bicleta respousava, desforme, alguns metros à frente do mutirão de gente. Ele não viu. Não viu: barulhento, oitro metros de comprimento e faróis altos. Os ônibus que cruzam aquela parte da pista são sempre afoitos; é uma curva perigosa, toda mãe dizia isso.
Quando recobrou a capacidade de olhar nos olhos de quem lhe perguntava, freneticamente, nada a respeito de tudo ele disse “Eu ‘tava’ dormindo, em casa, por que eu ‘tô’ aqui? Que isso?” Choque.
Só dentro de algumas horas, quando sentisse o sangue coagulado sujando a panturrilha e o dolorido nas costas e braços, após ter recobrado a consciência depois do segundo desmaio, ele finalmente processaria o que aconteceu. Em alguns dias, ao se lembrar, se chamaria de idiota enquanto esperaria uma cicatriz substituir o ferimento.
A curva era, de fato, intensa – um perigo. Mas eles semprem buzinam. Sempre dão a seta antes de virar. E quando te pegam e você cai, não tem a quem culpar se não você.
A vida coloca, sempre, andorinhas antes de chover.
Cinema e caminhada.
Num dos assentos do metro, o rapaz ajeitava os bottons na mochila da moça; ingenuidade adolescente invejável: ter tempo e espaço em si para se preocupar com coisas simples e dar importância a qualquer assunto que seus olhos vejam fora de lugar. Como te disse enquanto cortávamos a esmo as ruas de Botafogo, não sinto falta dessa ingenuidade por achar que pagamos barato por ter todas as compensações que esse início de maturidade nos traz. Ingênua continua apenas a prepotência de achar que posições de quadros na parede do quarto são mais importantes do que bottons numa mochila.
ê
“E como tudo é uma questão de testemunho, pouco importa se está bem enquadrado ou fora de foco.”
alice miceli, sobre a democratização do processo fotográfico, enquanto documentação.