Arquivos | the new creatures RSS for this section

Solomon first steps

Quando era criança minhas orações eram simples: na maior parte, resumiam-se em pedidos de sabedoria. Lembro bem que a primeira história da bíblia a me impressionar foi a do rei Salomão: como se não bastasse o homem ser filho do homem mais famoso do pedaço, ele foi surpreendido pelo próprio Deus que fez a proposta que todos nós queremos que seja feita a nós hoje: “Peça-me o que quiser”. O cara nem pareceu pensar antes de responder: “Dá-me sabedoria.”

A história que surpreendeu tanto na época que durante muitos anos da infância eu fazia duas a três orações por dia, pedindo a mesma coisa. Menino novo, bobo, achava que um dia Deus estalaria dedos e eu acordaria o cara mais sabido do mundo. Muito bobo.

Pensava assim, que Ele resolveria pular uns 30 anos de experiência e me faria conhecer todos os mistérios do mundo para que então eu pudesse… o que mesmo? Na real, não queria fazer nada. Não pensava em fazer nada. O moleque durante anos pediu sabedoria e nunca se perguntou o que faria se realmente a tivesse.

Na história, se bem me lembro, Salomão justifica: “Dá-me sabedoria para guiar o teu povo, meu Senhor.” E o deslumbramento típico da infância não me deixou ver que na história a tal sabedoria era só um meio, não um objetivo. Como toda criança, eu vi apenas o que eu queria ver, do jeito que me agradava ver. Mais sábio do que pedir sabedoria, talvez, seria pedir o saber-o-que-pedir. Mas uma criança raramente consegue abstrair conceitos – talvez, tenha gastado anos numa oração inútil.

Salomão recebeu seu pedido e cumpriu seu objetivo. Mas Deus deixou claro que faria aquilo de graça. Se Salomão quisesse, poderia ficar o tempo todo vendo dançarinas e se lambuzando de nutella: os dons de Deus são irrevogáveis. Mas Salomão cumpriu seu objetivo. Não por que sentia que tinha que pagar a Deus pelo que tinha recebido, o que seria impossível. O que aconteceu foi que com a sabedoria Deus também deu a Salomão um Salomão novo.

The Laughing Man

“I thought what I’d do was, I’d pretend I was one of those deaf-mutes. That way I wouldn’t have to have any goddamn stupid useless conversations with anybody. If anybody wanted to tell me something they’d have to write it on a piece of paper and shove it over to me. They’d get bored as hell doing that after a while, and then I’d be through with having conversations for the rest of my life.”

O desespero

da assíntota que caminha em direção ao infinito sem nunca chegar ao ponto.

Conversas sobre a chuva

Tem-se uma visão peculiar das coisas quando se está em movimento. Dentro de um ônibus, por exemplo.
A viagem corre, trivial, com as janelas abertas e: chuva. Os passageiros se apressam em fechar as janelas para evitar as fortes gotas torrenciais, típicas de uma chuva de verão, talvez alguma tenha se atrasado e invadido o outono.
Mais duas ruas, e tudo está seco. Só o ônibus e o passageiro com o braço do lado de fora estão molhados.
O ônibus relativamente vazio, dava-me uma certa privacidade para escutar música e colocar a mochila no banco ao lado. Numa breve distração, retiro a mochila e a coloco sobre o colo, dando lugar à morena que subiu, na altura da Glória. “Tava chovendo lá trás?”. Incrível como ela ignorou o som do ipod; mesmo quando retirei os fones deixando-os pender em torno do pescoço eu ainda era capaz de ouvir os versos de Love is Noise. “Tava sim… Só em Botafogo, eu acho.” “Estranho, né?” “É… (…) E o mais engraçado é que parecia ser só na Voluntários. Não estava chovendo no Jardim Botânico e nem na praia.” “Pois é… desculpa interromper sua música.” “Que isso, não foi nada…”
‘Conversar é bem mais interessante que ouvir música.’ Não pensa, idiota, fala. Por outro lado, sempre achei que já estava num nível tal que me derramaria na frente da primeira que me abrisse um sorriso tão lindo como aquele. Foi bom saber que ainda não perdi completamente o controle (Foi?).
Quando saltei do ônibus ela falava ao telefone. Sorri, quando a vi retribuir o meu olhar de cima da calçada.
De fato, a mocinha do blog-que-não-existe-mais tinha razão. Encontros com desconhecidos, simples e casuais, por algum motivo, sempre soam extraordinários, por mais simplórios que sejam. Vou procurar ter competência de levar a conversa adiante caso a chuva seja tão generosa comigo denovo.

Idéia de talvez

Não queria me acostumar com o apartamento vazio no início – planejava comprar os móveis rápido. Errei em ter planejado. Acabei me acostumando a sentar no colchonete e encarar a Audrey na parede: a foto em preto e branco é a única beleza da sala vazia.
Não planejei me acostumar com essa realidade; você ainda com forças para fingir com um sorriso e uma lisonja que tenho um buraco no vazio no peito. E eu comendo a porção de quem não teve coragem de meter um freio na tua boca.

To make some sense

Zooey disse:

“Old habits die hard when you got a sentimental heart. “

e eu ainda me vendo em palavras alheias.