“That era has passed.
Nothing that belonged to it exists any more.”
Não lembro se cheguei a dizer que você foi um dos melhores amigos que eu já tive. Mas tenho certeza de ter dito que te amava, e fico feliz por ter dito isso. O seu jeito simpático de lidar com quem você não tinha a obrigação alguma de tratar bem era cativante. Por isso mesmo, creio eu, poucas lembranças na minha vida são tão fortes como a da noite em que nos conhecemos: fomos acompanhar as meninas até em casa e começamos a conversar sobre filósofos alemães e em seguida sobre como cortar carne para churrasco, “Me identifiquei muito com você, Bruno.”, foi o que você disse quando a despedida se tornou inevitável. Uma franqueza simples, que me deixava tanto admirado quanto chocado. Aquela noite poderia abrir um capítulo na minha biografia, que seria exclusivo para contar o quanto aprendi desde então. Ninguém sabe ao certo quantas noites viramos na sala da Ninha, conversando, jogando ou lendo. Você não lia – lecionava. Um mestre nato. Eu fingia entender; pensava que esqueceria as palavras estrangeiras no dia seguinte, mas lembro-me delas até hoje. Hoje. É puro egoísmo dizer que você faz falta hoje.
Era noite quando a Ninha me ligou, tentando dizer entre os soluços que teu coração havia parado. Quando recebi a notícia de tua morte eu estava atravessando a Primeiro de Março e a rua simplesmente sumiu embaixo dos meus pés. Vacilantes, minhas pernas me arrastaram até uma árvore, onde braços procuravam o inútil apoio: já não havia mais chão em parte alguma. Os prédios antigos do centro, a história, a noite, estrelas, cores, viagens, as fotos, a música: tudo sumiu num embaçado de lágrimas asfixiante. Quando A. saiu do trabalho, me encontrou debulhando as lágrimas no chão. Repeti a notícia três vezes antes que ele se rendesse à verdade. Dentro de uma hora estaríamos repetindo tuas piadas e rindo do que antes era desgraça.
Não fui no teu enterro, culpa tua; aprendi contigo a não me sentir a vontade com a falta de sentido dessas coisas. Mas sei em detalhes como foi: pastor, puta, professor, padre, traficante – todo o tipo de gente, de toda a parte da cidade. Mas em nada tua morte causou mais impacto naquelas vidas do que o tempo que você passou com elas. Nenhum dia da tua vida foi desperdício.
Falta de posicionamento, sempre excessivamente flexível, disposto a fazer qualquer besteira pela mais estúpida justificativa – como um vácuo contraindo o esôfago e o ventre, a sensação de vertigem por encarar os próprios erros é implacável. Precede o desejo bruto de fazer um desenho do passado e amassá-lo cuidadosamente, como quem joga fora um rascunho feio, sujo e vergonhoso.
A barriga tá que não agüenta mais café; eu ignoro o desconforto abdominal e ligo a cafeteira pela terceira vez no dia. A necessidade de ocupar a mente, porém, é maior do que vontade de tomar café e, por sua vez, a vontade de tomar café não se resume a mera ingestão da água enegrecida pela infusão com o grão torrado: abrir o pote, sentir o cheiro, medir o pó, derramar a água na cafeteira. O barulho da água ebulindo. O desejo de tomar café só se satisfaz com uma série de atitudes que mantém minha mente ocupada, dilui o tédio e satura o estômago.
Sempre lembro de procurar o número do telefone quando passo por momentos como esse: me pego admirando com ternura um casal de adolescentes e começo sentir meu rosto áspero demais, os braços cansados, as olheiras, por Cristo! eu só tenho vintecinco anos; ainda sou muito jovem para me sentir assim tão velho. Não são minhas frases – como quase tudo que digo faz referência aos diálogos dos filmes em preto e branco, dos livros sei lá de quem, das crônicas que eu li uma madrugada dessas num blog desses. Além de cansado e áspero, vazio; um emaranhado de frases de efeito e de referências alheias, um plágio ambulante do cliché. Ser espectador do afeto alheio não é problema, nem mesmo incomum. Problema é a exasperação causada pela cadeia de pensamentos evocados pelo momento – um ciclo enleável de melancolia que quase nada tem a ver com seu estopim. Antes de se deixar absorver por lembranças de quase uma década, lembro de procurar o telefone que ela me mandou por email, “Gestalt. Copacana. É simples, você deita num sofá e começa a falar sobre as coisas que não gosta de falar.”
Como uma extensão dos olhos, os dedos perscrutavam as capas dos CD’s; o ato de tocá-los confirmava a minúcia de sua pesquisa por algo interessante para ouvir. Não eram os seus álbuns, não era sua estante, não estava em sua casa, mas tinha intimidade o bastante com aquela mulher para abrir seus armários enquanto ela fazia o almoço daquele domingo. Quando já havia perdido completamente a fé de achar algo interessante no meio dos nomes de cantores evangélicos e trilhas sonoras de novelas do horário nobre, fora surpreendido pelo velho Willie Nelson, embora na capa daquele álbum ele não fosse assim tão velho.
Olhava para ela enquanto esperava a música começar, esperando qual seria a reação dela à música. Em verdade, aquela atitude era uma forma de mostrar que, a despeito de ter metade da idade dela, também tinha bom gosto, também gostava dessas músicas, essas da época dela. E ela. Sem desviar a atenção do que estava fazendo, meneou a cabeça e pausadamente disse para si, “Fazem mais de vinte anos que eu não escuto Willie Nelson” enquanto o rosto desenhava um sorriso que ele raramente via no rosto dela: profundamente sincero, sem afetação, um sorriso que a tornava um livro aberto, onde ele pode ver os vinte e cinco anos que os separavam: a certeza de que passaria a vida ao lado do homem que dançava country com ela há mais de vinte anos se tornando esperança e em seguida dúvida e depois tragédia.
Depois daquele almoço de domingo ele demorou a voltar naquela casa. Quando o fez, alguns meses depois – quando já não tinha mais a mesma intimidade com aquela casa -, fora surpreendido pelo som de música country. As lembranças desses últimos meses não foram das mais maravilhosas, mas serviram para afogar o que sobrou do passado.
Quando lembro que já começo a esquecer algumas fórmulas básicas de matemática sinto uma necessidade urgente de voltar a estudar, mesmo que tivesse que largar qualquer projeto que ao qual minha vida dedique atenção. Mas algumas prioridades falam mais alto e a urgência cede; tem que ceder. A falta de um objetivo ainda não alcançado é sempre maior do que a satisfação dos que já alcançamos, e essa máxima pode com muita freqüência me fazer inverter prioridades e fazer minha vida perder um controle que já lhe é escasso. A lógica tem disso às vezes: nos acostumamos com máximas e frases de efeito e lhe creditamos a verdade por conformismo ou mera falta de experiência – o caminho mais curto entre dois pontos deve ser um caminho possível, o que nem sempre significa uma linha reta. Crescendo, temos que começar a fabricar nossas próprias máximas.